top of page

Projetos
de Pesquisa

O papel das instituições de educação (básica e corporativa) no desenvolvimento de cidades inteligentes e sustentáveis

fapergs.png

Caracterização do problema:

Inúmeras cidades em todo o mundo estão implementando projetos de cidades inteligentes (CI). No Brasil, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, entre outras, também buscam desenvolver projetos para tornarem-se “territórios com elevada capacidade de aprendizagem e inovação, que se baseia na criatividade da sua população, nas suas instituições de criação de conhecimento e na sua infraestrutura digital de comunicação e gestão do conhecimento” (KOMNINOS, 2006). Escolas, universidades e universidades corporativas são algumas das instituições de criação de conhecimento. 

Apesar de ser um conceito em construção (HOLLANDS, 2008), cidades inteligentes podem ser vistas como um ecossistema de inovação urbano com múltiplas partes interessadas (MAYANGSARI; NOVANI, 2015; CAMBOIM; ZAWISLAK; PUFAL, 2019), “formada entre atores ou entidades cujo objetivo funcional é possibilitar o desenvolvimento e a inovação tecnológica” (JACKSON, 2011, p. 2).  Dentre suas diversas dimensões, destaca-se a dimensão “organização”, que diz respeito as organizações públicas, privadas e de educação, que se relacionam com a comunidade, a partir de pesquisa e desenvolvimento, educação tecnológica, educação profissional e empreendedorismo (SOTT; SILVA, 2023).

O conceito de cidades sustentáveis (CS) se imbrica de alguma forma, uma vez que cidade é entendida como um conjunto de estruturas físicas, de entidades vivas que compõem a sociedade de uma cidade e o fluxo das interações entre elas (ISO, 2019). Seu desenvolvimento sustentável está baseado em um desenvolvimento que atenda às necessidades ambientais, sociais e econômicas do presente, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atender às suas próprias necessidades (ISO, 2016a). A busca pelo desenvolvimento de cidades sustentáveis, principalmente a partir de padrões internacionais como a ISO, buscam (ISO, 2016b):

- Ajudar a construir consenso sobre o desenvolvimento sustentável dentro das comunidades;

- Melhorar a sustentabilidade, inteligência e resiliência de estratégias, programas, projetos, planos e serviços conduzidos sob a responsabilidade direta das comunidades ou no território ao qual se relacionam;

- Desenvolver abordagens intersetoriais, multidisciplinares, do valor do ciclo de vida e do custo total;

- Promover sinergias entre vários atores por meio de uma abordagem holística;

- Aumentar a eficiência e atratividade das comunidades.

Nessa discussão, o conhecimento possui papel fundamental, uma vez que a educação e a capacitação em todos os níveis aumentam a consciência, o conhecimento e as habilidades que contribuem para o desenvolvimento sustentável, inteligência e resiliência (ISO, 2016b). 

O olhar sobre CI a partir das instituições de educação demonstra ser um passo para a concretização do ODS 4 – Educação de Qualidade, abordados pela agenda 2030 da ONU (AGENDA 2030a). Nos documentos que versam sobre os ODS, se busca assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos. Em particular a Meta 4.4 estimula, até 2030, aumentar substancialmente o número de jovens e adultos que tenham habilidades relevantes, inclusive competências técnicas e profissionais, para emprego, trabalho decente e empreendedorismo. São instituições de criação de conhecimento, como Fundação Liberato, Unisinos e Banrisul, por exemplo que se conectam com a cidade e outros atores relevantes e que têm a capacidade de desenvolver competências empreendedoras e tornar as cidades mais inteligentes, inclusivas e igualitárias.

No contexto de CI, uma reflexão sobre o distanciamento entre a escola e o aluno, quando

 

Atualmente, ensinar para a criticidade continua sendo o papel da escola, entretanto, é necessário reorganizar o seu interior para que ela seja mais identificada com a sociedade atual e não um espaço de resistência simplista que opera mais no âmbito de se opor ao técnico do que compreender a cultura oriunda das tecnologias (LUCENA; SCHLEMMER; ARRUDA, 2018, p. 18).

Apesar da crítica sobre o distanciamento, alguns estudos apontam para iniciativas que utilizam tecnologias para aproximar os alunos da cidade. Um exemplo é o projeto Ágora do Saber, desenvolvido por Schlemmer et al. (2018), que se constitui em um jogo (game) híbrido, multimodal, pervasivo e ubíquo, desenvolvido sob a temática doo Patrimônio Histórico Artístico e Cultural e a Paisagem Cultural do município de Bento Gonçalves-RS. Utilizando dispositivos móveis, realidade misturada, realidade aumentada, geolocalização, personagens e cenários em 3D, o ambiente do jogo é a cidade. 

Já o olhar sobre CS, mesmo não estando diretamente vinculado as instituições de educação, a partir do desenvolvimento de um ecossistema de inovação contribui para a concretização do ODS 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis, que tem por objetivo “tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis.” (AGENDA 2030b). Nesse ODS, a Meta 11.a estimula o apoio à “integração econômica, social e ambiental em áreas metropolitanas e entre áreas urbanas, periurbanas, rurais e cidades gêmeas, considerando territórios de povos e comunidades tradicionais, por meio da cooperação interfederativa, reforçando o planejamento nacional, regional e local de desenvolvimento.” (AGENDA 2030b).

Como já mencionado, escolas, universidades e universidades corporativas, aqui denominadas instituições de educação (IE), são algumas das instituições de criação de conhecimento, e que exercem papel fundamental no desenvolvimento empreendedor e de inovação das cidades. Diversos são os exemplos sobre esse papel, sendo que as universidades já possuem sua posição mais bem estabelecida. Exemplos como a Unisinos, em São Leopoldo/RS, que possui iniciativas como o Portal da Inovação, um locus de inovação aberta, que busca aumentar o engajamento das empresas no processo de transferência de tecnologia. O Portal utiliza um conjunto de processos de interface intermediados por especialistas capazes de garantir a qualidade, melhorar a gestão do projeto e fazer a melhor escolha de parceiros para o projeto da empresa. Essa abordagem tem proporcionado um comportamento empreendedor para a pesquisa, inclusive de alunos da universidade, e ampliado a inserção da Universidade em seu entorno (FACCIN et al., 2021). Outra iniciativa da Unisinos, juntamente com a PUC/RS e UFRGS foi a criação do Pacto Alegre, com o objetivo de potencializar o empreendedorismo e a inovação em Porto Alegre/RS (SILVA; FACCIN, 2021).

No ensino básico, se destaca a Fundação Liberato, de Novo Hamburgo/RS. Uma das principais iniciativas dessa escola de educação profissional de nível técnico é a realização da Mostratec, uma feira de ciência e tecnologia que se destina à apresentação de projetos de pesquisa em diversas áreas do conhecimento humano, realizados por jovens cientistas do ensino médio e da educação profissional técnica de nível técnico, do Brasil e de vários países. A Mostratec promove integração entre as instituições de ensino, a pesquisa e o meio empresarial, possibilitando o desenvolvimento, a aplicação e a divulgação de novas tecnologias (MOSTRATEC). Contudo, apesar do exemplo da Mostratec, as escolas possuem um papel ainda tímido. Em estudo preliminar, a partir de uma metassíntese (SILVA; SOTT, 2023), se percebeu que: (1) Diferentes atores do ecossistema de inovação desempenham um papel com pouca interação com as escolas; (2) Os alunos são estimulados a desenvolver habilidades empreendedoras com base em ferramentas e ações desenvolvidas pela escola e demais atores do ecossistema de inovação; (3) Há potencial para as escolas desenvolverem ações e ferramentas para os alunos que conectem as necessidades de cidades inteligentes e responsáveis. Em resumo, as autoras mostram que os esforços científicos se concentram no aprimoramento das habilidades de empreendedorismo, enquanto outros elementos das cidades inteligentes permanecem à margem.

Por fim, empresas também colaboram para esse conhecimento, a partir de suas Universidades Corporativas. Pode-se citar o exemplo do Banrisul, que lançou em 2020, o Banritech, programa que visa impulsionar o ecossistema de inovação do Rio Grande do Sul, a partir da aceleração, mentoria e capacitação e desenvolvimento de startups selecionadas. Com isso, o Banrisul se aproxima ainda mais da sua comunidade, cumprindo com o compromisso em participar ativamente no desenvolvimento social e econômico do Estado (BANRITECH). Entende-se que as três instituições possuem papel fundamental no desenvolvimento de ecossistemas de inovação em suas regiões de atuação. Isso se dá de forma mais ampla do que somente a partir dos projetos aqui elencados, a partir de suas conexões e outras ações desenvolvidas. Apesar do importante papel do Banrisul no incentivo ao empreendedorismo, não há indícios na literatura que descrevam iniciativas como essa.

Como já mencionado, de um lado temos que a literatura apresenta um papel mais amplo para as universidades, uma vez que podem estar envolvidas na governança regional, unindo-se aos formuladores de políticas nacionais e regionais e engajando-se com a indústria e a comunidade locais para desempenhar um papel de desenvolvimento (BENNEWORT; JONGBLOED, 2010; PUGH et al., 2016; GUNASEKARA, 2006). Por outro lado, Mas ao analisar a literatura sobre cidades inteligentes e cidades sustentáveis, a conexão do tema com instituições de educação ainda é escassa, e é quase inexistente no que diz respeito a educação básica e corporativa, mesmo havendo iniciativas como as descritas acima que demonstram seu protagonismo, reforçada pela tese de doutorado de Muller (2018). A pesquisadora analisou como ocorreu a constituição da cultura escolar da iniciação científica no ensino médio profissionalizante, da Fundação Liberato, entrelaçada à organização da MOSTRATEC. Contudo, competências empreendedoras e seu papel na cidade não foram explorados na tese. 

A partir da identificação em uma lacuna sobre a contribuição das instituições de educação básica e corporativa em cidades inteligentes e sustentáveis, o presente projeto busca responder a seguinte questão: De que forma as Instituições de Educação Básica e Corporativa desenvolvem práticas que estimulam o empreendedorismo e a inovação em cidades inteligentes e sustentáveis?

 

a) Objetivos:

A partir do contexto apresentado, o principal objetivo do projeto é o de analisar o papel das instituições de educação (básica e corporativa) como atores ativos no desenvolvimento de práticas que estimulam o empreendedorismo e a inovação em cidades inteligentes e sustentáveis. O objetivo não somente será visto sob a ótica das ações das instituições de educação, mas também sua contribuição na governança das cidades inteligentes, no desenvolvimento de políticas públicas e na relação das IE com a cidade “vista como um sistema de sistemas e interações que fomentam e são fomentados por comportamentos humanos emergentes” (ISO, 2012, p. 1).

 

Os objetivos específicos são:

  1. Analisar as ações de criação e disseminação de conhecimento empreendedor e de inovação de instituições de educação básica e corporativa;

  2. Detalhar o envolvimento dos atores da cidade inteligente e sustentável e sua contribuição nas ações empreendedoras e de inovação;

  3. Analisar o papel das instituições de educação nos projetos de cidades inteligentes e sustentáveis;

  4. Propor novas ações para criação e disseminação de conhecimento empreendedor e de inovação a partir de instituições de educação, articuladas com os demais atores envolvidos em ecossistemas de inovação.


 

h) Referências:

 

AGENDA 2030a. Objetivo 4 – Educação de qualidade. Disponível em <http://www.agenda2030.org.br/ods/4/>. Acesso em 15 de ago. de 2021.

 

AGENDA 2030b. Objetivo 11 – Cidades e comunidades sustentáveis. Disponível em <http://www.agenda2030.org.br/ods/11/>. Acesso em 15 de ago. de 2021.

 

BANRITECH. Disponível em <https://promo.banrisul.com.br/bdg/link/banritech.html>. Acesso em 15 de ago. de 2021.

 

BARDIN, Laurence. Content analysis. São Paulo: Edições, v. 70, p. 279, 2016

 

BENNEWORTH, Paul; JONGBLOED, Ben W. Who matters to universities? A stakeholder perspective on humanities, arts and social sciences valorisation. Higher education, v. 59, n. 5, p. 567-588, 2010.

 

CAMBOIM, Guilherme Freitas; ZAWISLAK, Paulo Antônio; PUFAL, Nathália Amarante. Driving elements to make cities smarter: Evidences from European projects. Technological Forecasting and Social Change, v. 142, p. 154-167, 2019.

 

FACCIN, Kadígia et al. The Locus for Open Innovation Arrangements: How Universities Can Engage Firms to Collaborate. The Palgrave Handbook of Workplace Innovation, p. 295-316, 2021.

 

GUNASEKARA, Chrys. The generative and developmental roles of universities in regional innovation systems. Science and public policy, v. 33, n. 2, p. 137-150, 2006.

 

HOLLANDS, Robert G. Will the real smart city please stand up? Intelligent, progressive or entrepreneurial?. City, v. 12, n. 3, p. 303-320, 2008.

 

IPEA. Radar nº 64 - Dezembro de 2020. Disponível em < https://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/radar/201207_radar_64_artigo_05.pdf>. Acesso em 15 de ago. de 2021.

 

ISO, International Organization for Standardization. ISO/TC 268 Sustainable cities and communities. Genova: ISO copyright office, 2012.

 

ISO(a), International Organization for Standardization. ISO 37100 – Sustainable cities and communities — Vocabulary. Genova: ISO copyright office, 2016.

 

ISO(b), International Organization for Standardization. ISO 37101 - Sustainable development in communities — Management system for sustainable development -Requirements with guidance for use. Genova: ISO copyright office, 2016.

 

ISO, International Organization for Standardization. ISO 37105 – Sustainable cities and communities -- Descriptive framework for cities and communities. Genova: ISO copyright office, 2019.

 

JACKSON, Deborah J. What is an innovation ecosystem? National Science Foundation, Arlington, VA. 2011.

 

KASTRUP, Virgínia. O funcionamento da atenção no trabalho do cartógrafo. In: Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade, 2009.

 

KOMNINOS, Nicos. The architecture of intelligent cities. Intelligent Environments, v. 6, p. 53-61, 2006.

 

LUCENA, Simone; SCHLEMMER, Eliane; ARRUDA, Eucidio Pimenta. A cidade como espaço de aprendizagem: educação e mobilidade na formação docente. Revista Tempos e Espaços em Educação, v. 11, n. 01, p. 11-24, 2018.

 

MAYANGSARI, Lidia; NOVANI, Santi. Multi-stakeholder co-creation analysis in smart city management: an experience from Bandung, Indonesia. Procedia Manufacturing, v. 4, p. 315-321, 2015.

 

MELLO, S. F.; FACCIN, Kadigia; SILVA, Luciana Maines da. O papel da universidade nos ecossistemas de inovação em países desenvolvidos e emergentes. In: Marcelo Gonçalves do Amaral; Andréa Aparecida da Costa Mineiro; Adriana Ferreira de Faria. (Org.). As hélices da inovação: interação universidade-empresa-governo-sociedade no Brasil. 1ed.Curitiba: CRV, 2022, v. 1, p. 267-292.

 

MOSTRATEC. Disponível em < https://www.liberato.com.br/mostratec/>. Acesso em 15 de ago. de 2021.

 

MONITOR, Global Entrepreneurship. gem. Retrieved abril, v. 12, p. 2019, 2019.

 

MÜLLER, Deise Margô. Das feiras de ciências à iniciação científica no ensino médio profissionalizante: história da Fundação Escola Técnica Liberato Salzano Vieira da Cunha (1974-2009). 2018.

 

PASSOS, Eduardo; BARROS, Regina Benevides de. A cartografia como método de pesquisa-intervenção. In: Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade, 2009.

 

PUGH, Rhiannon et al. A step into the unknown: Universities and the governance of regional economic development. European Planning Studies, v. 24, n. 7, p. 1357-1373, 2016.

 

ROSSI, André; PASSOS, Eduardo. Análise institucional: revisão conceitual e nuances da pesquisa-intervenção no Brasil. Revista Epos, v. 5, n. 1, p. 156-181, 2014.

 

SCHLEMMER, Eliane et al. Ágora do Saber: um game pervasivo sobre a cultura na cidade de Bento Gonçalves. Atas do, v. 4, 2018.

 

SILVA, Luciana Maines da; FACCIN, Kadígia. Universities’ role in the Responsible Governance of Smart Cities. In: 2021 ISPIM Innovation Conference, 2021, Virtual.

 

SILVA, Luciana Maines da; SOTT, Michele Kremmer. Schools as actors of innovation ecosystems in the development of smart and sustainable cities. In: 2023 IAMOT Conference, 2023, Porto Alegre.


SOTT, Michele Kremmer; SILVA, Luciana Maines da. A widespread review of smart cities: identifying dimensions and core components. In: 2023 IAMOT Conference, 2023, Porto Alegre.

bottom of page